terça-feira, 6 de abril de 2010

Muito além da motown*

*texto Alexandre Duarte - Retirado do site Raça Brasil.



O sucesso da empreitada de Berry Gordy Jr. abriu as portas para outros negros fundarem seus selos e darem chance para as criações de novos artistas com uma liberdade até então pouco experimentada.


Desde que o folclorista norte-americano John Lomax entrou nas prisões e nas fazendas do Texas, no começo do século XX, para gravar spirituals, work songs, blues e folks cantados pelos negros nos Estados Unidos, a música nunca mais foi a mesma. John e seu filho, Alan Lomax, foram os pioneiros na gravação de música folclórica norteamericana, que tinha duas raízes: Irlanda e África. Nas gravações apareceram pela primeira vez os registros do que formaria a base da música americana, ou seja, o blues, que se ramificaria inumeráveis vezes em jazz, soul, funk, rock´n´roll, disco e muito mais. Com o surgimento da indústria fonográfica, as gravadoras começaram a pipocar. Norman Granz, Alfred Lion, Ahmet Ertegün, Creed Taylor, Jim Stewart, Leonard e Phil Chess eram alguns dos fundadores de selos musicais importantes que exploravam, basicamente, música feita pelos negros nos EUA, tornando nomes como Ray Charles, Otis Reading, John Coltrane e outros conhecidos mundialmente. Só tinha um detalhe: apesar de todos gravarem em sua maioria artistas negros, os donos dessas gravadoras eram brancos. Nativos ou descendentes de imigrantes, todos se davam bem com os seus músicos e viviam em um ambiente em que a segregação perdia feio para o amor à Música. Mas ainda assim faltava uma base de confiança: uma gravadora capaz de entender todos os anseios criativos e políticos, não só dos músicos, mas do público negro que começava a se levantar contra o sistema estabelecido até então. Nesse momento Berry Gordy Jr. entra em ação.

A mais poderosa


Em 14 de janeiro de 1959, Berry Gordy Jr., produtor musical que havia descoberto a banda de Smokey Robinson, a The Miracles, fundou a Tamla Records depois de pegar um empréstimo de 800 dólares com sua família. Um ano depois, um novo selo, a Motown Records, que incorporou a Tamla e se tornou a mais poderosa gravadora de música negra da história fundada por um negro. A Motown nasceu em Detroit, sob a junção de “motor” com “town”, já que a cidade era conhecida como a “cidade motor” por causa das fábricas de automóveis e da Boeing. O auge criativo foi nos anos 1960 e 1970, mas o selo dura até hoje, subsidiado pela Universal Music. Foram também os artistas da Motown os únicos capazes de concorrer com The Beatles nas paradas de sucesso e vendas de discos na época. “O processo de transformação e aceitação de músicos negros em lugares onde não era permitida a entrada deles, a credibilidade artística e uma indústria monstruosa em formação permitiram que isso acontecesse”, diz Jorge DuPeixe, da Nação Zumbi. Isso, aliado a nomes, que representavam essa disputa, a canções que falavam mais do que “eu te amo” em suas letras, foi essencial, não só para o crescimento da gravadora, mas também para a afirmação do movimento negro e sua representatividade na mídia, já que era impossível ignorar artistas tão populares e talentosos quanto Marvin Gaye, Stevie Wonder, Supremes (com Diana Ross), The Jackson 5, Temptations e outros. Para lembrar, Michael Jackson, nos anos 1980, lançou pela Motown o disco Thriller, o mais vendido da história da música mundial. O sucesso da empreitada de Berry Gordy Jr. abriu as portas para outros negros fundarem seus selos e concederem a chance para novos artistas criarem com uma liberdade até então pouco experimentada. Assim, surgiram gravadoras fundamentais, embora menos conhecidas. “Acho que toda a fundação e alma da música mundial são de origem ‘negra’. Do rock, passando pelo mento, calypso, blues, soul, samba, frevo, jazz. Os selos só estavam no lugar certo, na hora certa”, complementa Jorge. Conheça agora outras importantes gravadoras fundadas por negros entre os anos 60 e 70:

Curtom


Quem também estava no lugar certo há muito tempo era Curtis Mayfield. Multi-instrumentista e um dos mais importantes compositores norte-americanos de todos os tempos, ele se tornou conhecido com a banda The Impressions, que atravessou os anos 1960 fazendo sucesso. Curtis também foi um dos primeiros músicos negros a se envolver na briga pelos direitos civis e a fazer canções que falavam sobre o assunto. Quando decidiu seguir carreira solo, era natural que um selo próprio surgisse para abrigar o seu trabalho e o de outros artistas. Vale registrar que, antes dele, Sam Cooke, um dos mais influentes artistas da época, também montou seu selo, o SAR. Infelizmente o SAR durou apenas de 1961 a 1964, devido à morte do cantor. A Curtom surgiu de uma parceria entre Curtis e Eddie Thomas, em 1968. O selo atingiu sucesso logo de cara, com o nome forte de Curtis Mayfield puxando o catálogo. Já no começo da década de 1970, lançou discos fundamentais como Curtis (1970), a trilha sonora Superfly (1972) e There’s No Place Like America Today (1975). O primeiro é um disco que, de certa maneira, antecipa a sofisticação instrumental e o discurso social que deixaria Marvin Gaye na ponta da lista nos anos seguintes. Na Curtom, Mayfield podia, além de gravar da maneira como quisesse, contratar e produzir quem desejasse. Assim surgiram alguns ótimos trabalhos de The Staple Singers, Mavis Staple e Baby Huye and the Babysitters. O selo existe até hoje, mas seu catálogo está sob a responsabilidade da Warner, assim como os de muitas gravadoras independentes.

Strata East


Entre todos os selos fundados por negros, nenhum é mais lendário e conceituado que o Strata East. Fundado pelo trompetista Charles Tolliver e pelo pianista Stanley Cowell, em 1971, a quantidade de álbuns inovadores que a gravadora lançou é impressionante. A começar pelo primeiro disco, Music Inc., uma big band moderna e explosiva com vários dos músicos que lançariam seus trabalhos pela Strata East ao longo dos anos. A gravadora apostava em um som que ia do post-bop, passava pelo spiritual jazz, o free jazz, o afrojazz e chegava até sonoridades latinas em alguns de seus discos. Muitos dos músicos que passaram pelo selo já possuíam nome estabelecido no cenário, como os saxofonistas Pharoah Sanders, Clifford Jordan e Charlie Rouse e a organista Shirley Scott. Muitos outros, porém, aparecerem com trabalhos surpreendentes pela primeira vez no catálogo da gravadora, que teve como grande hit o disco Winter In América (1974), do músico, escritor e ativista Gil Scott-Heron junto com o pianista Brian Jackson.

“Acho que toda a fundação e alma da música mundial são de origem ‘negra’. Os selos só estavam no lugar certo , na hora certa ”

Lançar um nome como Heron demonstrava que a Strata East tinha, além da função musical, uma preocupação política e de afirmação do negro na sociedade americana. É difícil destacar alguns poucos trabalhos em um celeiro tão bom e produtivo, mas qualquer um dos discos dos fundadores do selo, bem como Black Capra (de Billy Harper), Mutima (de Cecil McBee) e In Harmony (de Weldon Irvine), merecem atenção. Atualmente, grande parte do catálogo do selo – que ainda existe), foi licenciado para ser lançado em CD.


Black Jazz

O selo independente durou seis anos em sua primeira “encarnação” e foi idealizado pelo pianista Gene Russell, no início dos anos 1970. Para a sorte de qualquer um que goste de boa música, mais de uma vez o catálogo do Black Jazz foi ressuscitado. Investia em estilos diversos, mas priorizava o jazz. Lançou trabalhos de free jazz, soul jazz e abriu espaço para algumas coisas de funk e até gospel. Uma das marcas da gravadora era o estilo das capas: todas com fotos em branco e preto, com uma margem negra que deixava a fotografia no meio e os nomes das músicas, dos músicos e do disco escritos em branco nesta margem. A exceção a essa fórmula, que logo caracterizava os discos do Black Jazz, é justamente o último disco do músico, o mais importante do selo, Adam’s Apple, do pianista Doug Carn. Com sua religiosidade sonora e visual que remetia à África muçulmana, Carn gravou quatro álbuns que estão entre as melhores coisas produzidas no gênero. Os três primeiros ao lado de sua esposa, a vocalista Jean Carn, que mais tarde seguiria carreira de sucesso como cantora de disco music. A mistura de jazz spiritual, soul, funk e free jazz de Carn, exemplifica não somente o som feito por seu selo, mas toda a liberdade e espiritualidade que cercavam essas gravadoras fundadas por descendentes africanos.
Espero que vocês tenham gostado! Vejo vocês na semana que vem! Mantenham a fé!!

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